sexta-feira, 17 de agosto de 2012

XXX

Deitar-me sobre este corpo já não posso
Leito desfeito em prantos desencantos
Subterfúgio da memória em desvario
Túmulo que abriga o desprezo vosso
Lembrança açoite com que me suplicio
Palavra calada cortada na garganta
Tecido cingido roto de esperança
Palco infeliz de triste farsanta
Peça encenada de verossimilhança.

Cala-te peito seco sobressaltado
Tudo o que um dia pensa que foi
Hoje e tão somente objeto indeterminado
Como pegadas imprecisas de matutalimoi
Ficou apenas o apetite desejado
Abre as portas coração
Deixa-te invadir pela mansa brisa
Que do mar calmo e sereno desliza
Que aos ouvidos em desalento
No vão e sutil momento
É a mais pura forma de oração.

Despe-te de toda vã vaidade
Desprende das fibras todo sofrimento
Canta num canto novo o momento
Deixa como sol nascer a felicidade
Que em raios iluminam a cidade
Purificando todo triste pensamento.

Abre as portas coração...
Adeus...

XXIX

Noites cariocas qualquer
envolto em pequenas fumaças
que circundam ruas estreias
avenidas amplas de saudades
atropeladas pelo som insistente
do pulsar descompassado
de um coração que bate insistente
na amplidão de um mar que insiste
na plena solidão de uma luz
da brasa que queima rubra
descompassada de ritmo no peito
que vaga ao som do mar pela
orla da cidade que vibra madrugada.

Noites quaisquer noites carioca
que sorri em plenos lençóis
envolto na fumaça de estreita
solidão de saudades desfeitas
na luz de um mar que vibra
ao som da orla madrugada
no vai e vem de ônibus
cruzando estrada infinita
luz que queima a brasa viva
de braços em abraços perfeitos
de círculos desfeitos na amplidão
de avenidas que se cruzam.

Cariocas noites...



domingo, 12 de agosto de 2012

XXVIII

A língua rija do pássaro beija flor
Numa cópula cheia de transcendência
Sustido no ar por tão delicadas asas
Somente para oscular tão fina dama
Exigindo de si tão hercúleo esforço
É na natureza o mais belo dos dramas
Pois o coração bate urgente
Como o tropel de cavalos puro sangue
Ameaçando-lhe romper com furor a câmara
Onde oculta-se o potente motor
Porém recebe de sua desejada amante
O mais fino néctar de suave olor.

Pássaro, língua, flor dançam seu bailado
Frenético e ritmado à luz da tarde morna
Abre-se ela pétala por pétala
Ao seu beijo apaixonado
Geme cantigas antigas
De eternos namorados sem saber ela
Inocente pura rubra flor
Que o desejo de seu amante
É fugaz e limitado
E que ao fim do encantado balé
Ele já estará por outra apaixonado
Mal sabendo ela que vai aos poucos
Perdendo todo viço de outrora
Que foi por ele fecundada
E que na mesma primavera 
De outro ano estará novamente apaixonada.


XXVII

Saliente o mar desnuda a adolescente
Expondo ao olhar o seio inocente
Alva escultura cravada
Na carne marmórea talhada
Assim exposta perfeita
Obra de arte de oculto desejo
A boca úmida espreita
Quem sabe a intenção do beijo
Abraçando com seus braços a ninfa
Púbere carregada de decência
O mar é o desejo hirto da linfa
E seu amplexo é pura aparência
Por à vista delicado pomo
Apenas para demonstrar sua veemência
Descerrando-o à força de seu domo
Impondo sua vontade intransigente
Ruborizando a branca face da prudência
Diante do tão surpreendente assomo
Mostrar-se ao alheio olhar corrente
É ter mordida a maçã da inocência.

XXVI

As coisas guardam segredos esquecidos
Faz parte de mim observá-los
Assim como quando abro um livro
E me pergunto quantos puderam amá-lo
Em que mãos estiveram
Em que estantes segregados
Quem primeiro desvirginou suas folhas
E em gozo puderam deliciá-las
E quem as abandonou por inteiro
Seduzido por outras páginas.

Todas as coisas guardam mistérios
Profundos como os do espaço infinto
Quando como meus olhos os fitam
Em plena noite estrelada
Tentando entender em cada estrela
O oculto de sua mensagem enviada
Num brilho intenso extremo
Percorrendo a madrugada.

Assim são as pessoas e suas vidas
Livros fechados à luz dia
Caminhando entre os seres na estrada
Livros fechados aos meus olhos
Pedindo para serem devassados
O profundo espaço do ser humano
Do humano ser em conflito
Num dia ensolarado
Por que chora aquela mulher?
Por que ri aquele homem?
Que pensamentos guardam esses seres?
O que se oculta em meu espaço?

Eu sou um livro espaço
Esperando alguém que me tocando
Desvirgine minhas páginas
E leia no meu oculto 
Suas intimas palavras.


sábado, 11 de agosto de 2012

XXV


Eu sou aquele que vive indistinto entre as pessoas
Sou o alheio no olho do meu vizinho
A sombra de um dia que passou
O gosto amargo de algo que se perdeu
Eu mil vezes eu estilhaçado entre os transeuntes
Eu em milhões de miríades de imagens caleidoscópias
O resto da garrafa de vinho quebrada na calçada
A pequena pedra no sapato
Sou aquele que vive submerso no medo
Que rasteja o lodo das misérias
Exalando o cheiro pútrido
Das lamentações do amante em agonia
Sou o corte profundo e o sangue carmim
O tudo e o nada, o avesso e o direito
Sou aquela lembrança de dias esquecidos
As pegadas no cimento fresco 
Que ninguém nunca soube
A palidez desta rosa e o perfume do mar
Sou aquela ave que cruza o céu 
Em dias de tempestade
Sou a tempestade 
E sua destruição na manha de outro dia
Sou a agonia profunda nas profundezas do ser
Sou o circulo perfeito incompleto 
E a distancia do raio
Sou o subterfúgio das lamentações
Um dia um rasgo deixará escapar o que sou...
E não mais vozes nem confusão nem lamentos..
Nem dias azuis cinzas tristes
Um dia me repartirei em milhões de pedaços
Que confusos cairão de sob o céu
Para molhar as calçadas da vida
como o grito da parturiente 
O silêncio o natimorto...

Um dia, confuso entre coisas confusas
Minh'alma se abrirá a enorme solidão
Para ser tragado de súbito
No escuro desse nosso destino...

Aprendi a ser o falsete do jogo alheio
Aprendi a dissimular
E de tanto dissimular
Já não sei mais quem sou 
Ou o que devo ser sendo.

XVIII

Poema de amor
À beira do mar infindo
Que teima me rasgar a carne
Me sinto a alma fugindo
Qual a gaivota que ronda
A onda lambe a praia
E desnuda a areia pura
Molha a moça de saia
A espuma de profunda alvura
Em evoluções fugidias
Trazida em ondas de loucura
Beija as pernas alvadias
Enquanto no espelho amarrotado
Cintila o intenso dourado
Do astro em seu leito profundo
O mar em seu sagrado túmulo
Me conta em sussurros
A dor em cúmulos urros
Geme amores afogados 
Em seus líquidos braços
Libertam-se almas ao espaço
Trazido à praia deserta
O velho vaso abandonado
Da alva alma liberta
Encontra enfim seu regaço

Copacabana - 2012

XXIV

Esta puta me sorri da janela
Que escancara o que foi inocência
O sorriso frenético 
Da boca banguela e sua língua fria
Tocando o úmido
Da verdade imprecisa
Do amor mal feito
Na pressa do dinheiro 
Algema que prende os corpos
Ao contato de mãos
Que deixam rasgos
Como navalha na carne
Essa puta me sorri
Do apartamento de onde vejo
A avenida que leva ao interior
Da janela aberta que é algo
Claustrofóbico que me prende
Com correntes invisíveis
A sentimentos indiferentes
Sem dentes boca me chupa
Sugando a nervura
A alvura
A alma.

XXIII

O gosto da buceta
Essa boca muda
Que me fala em silêncio
O segredo das entranhas
Que minha lingua roça
Cujos lábios beijo
Porta hermética
Que esconde o mistério
Da vida
Ao agasalhar o malho
Em seu talho profundo
Me perdendo no infinito
Universo sensível do buraco
Negro que traga impassível
O jorro luminoso da existência
Que é a buceta senão
A estrada que leva
Do nada ao Ser
No contínuo vai e vem
Do movimento ritmado.


XXII


Tocas me com tuas asas de ninfa
Com se tocasses o veludo do tempo
Áspero e abismal
Como o sonho bipartido da ausência.
Em vão correm as mãos
Tentando desenhar no corpo
Profundas e sutis poesias
Que com precisão
Parará as horas do tempo
Tecendo no espaço linhas Imortais.
A flor úmida oferta
O seu intenso olor
Que beijo qual beija o pássaro
Que com a lingua toca o veludo
E o profundo
Escondido na ilusão do mel.
Quantos segredos disfarçados
Numa tão singela flor
Com a qual me tocas
Com seu aspero veludo
Bipartido e abismal
Que para as horas
E esconde a ilusão
Dos segundos imortais
Tecidas no espaço tempo
Da batida das asas
Do pássaro que beija.

XXI


Antes
Rasgo à mão
A cortina do espaço
Desdenhando do tempo
Buscando a frase certa
Pra dizer o indizível
Com as mesmas palavras sólidas
Soletradas pela eternidade
Essa mutação que me abarca
Na mesma miséria que me nutre
Me colhe e mata
Entre choros impossíveis
Nasceu a tua falta.

XX


Desejo que você ame,
Que encontre o amor
Que ao encontrá-lo possa tê-lo
Que ao tê-lo possa cuidá-lo
Que ao cuidar possa florescer
Que as flores possam frutificar
Que os frutos alimentem outros amantes
Que outros amantes lhe lembre o amor.
 
Desejo que você seja forte,
Que sendo forte esteja segura
Que estando segura tenha confiança
Que tendo confiança vença os medos
Que vencendo os medos seja plena
Que sendo plena encontre a alegria.
 
Desejo que sejas tu,
Que sendo tu sejas milhares
Que sendo milhares seja única
Que sendo única se saiba importante
Que se sabendo se encontre
Que se encontrando dissipe as ilusões
Que dissipada as ilusões encontre a verdade
Que a verdade lhe traga todos os desejos anteriores.
 
Desejo apenas que sejas uma destas tardes raras
Uma destas flores caras que se vende
Daquelas que não se alcança
Daquelas que não se toca
Espero que desabroches nesta tarde ensolarada
Que vares a madruga espalhando seu olor
Que invade as casas, penetre os quartos
Trazendo aos nossos olfatos o cheiro intenso d'um passado.
 
Desejo apenas desejo e desejando
Espero que seja feita minha vontade.
Amem.

XIX


Um dia assim
Um gosto diferente
Abrir em mim
Uma ferida indolente
Em meus olhos carmim
Uma lágrima plangente.
 
Como uma vaga n'alma
Um gosto de falta
Uma antiga agalma
Pinta a noite alta
Que meus olhos contemplam
Como se fosse o céu
Nossa profunda ribalta.
 
Escreves nas profundezas
Donde sou indefinido
O silêncio endurecido
De tua delicadeza
É trazer à tona
O fantasma da tristeza
De um tempo preterido.

XVII


Frio, dia frio
Vontade de ter ao meu lado
Fazer amor debaixo do cobertor
Suor, calor
Teu abraço apertado.
 
Dia frio
Vontade de te encontrar
Buscando tua sombra
Despedaçada pela cidade
Eu a vagar.
 
Frio, dia frio
Saudade que não passa
Das horas que escapas
Eu feito lobo à tua caça
Fome de amor.
 
Frio, dia frio
Vem me beijar a boca
Vem me alisar os pelos
Vem morar no meu olhar
Roubar, tomar
Minha paz.

XVI


Já que você não vem
Posso querer cometer loucuras
Sair a sua procura
Numa escura rua
Nua solidão zen.
 
Já que você não vem
Posso chorar as horas
Da solidão que me devora
Por fora dentro
Todo corroído sentimento
Atravessado momento
Perdido das horas do teu bem.
 
Posso escrever poemas frios
Versos tristes pra ninguém
Gritar ao quatro ventos
Enquanto você não vem.
 
Não há estrela que meu coração não persiga
Força, leve viga
Que sustenta o sonho
Medonho dos meus sentimentos
Na força do seu momento
Nas linhas do meu destino
Um segundo desatino
Do bem de amar.

XV


Não me castigue mais minha amada
Com teus versos de ausência
Quero sentir-te a delicada presença
E arrancar de teus lábios
Os beijos de outrora.
 
Não me diga mais nada
Daquilo que estamos fartos até a alma
Quanto sofre o pobre amante
Até colher a flor amada
Mantendo-a viva em versos inflamados.
 
Beija-me a boca,
Enquanto colho em teu regato
Todas as promessas que foram adiadas
Fazendo parecer esse momento
Aquele mesmo tempo antes imaginado.

XIV


Aqui, sob esse céu, passaram os homens
Com seus passos lentos,
Admirados com a vida imposta de uma impostura
De ser apenas um mero farfalhar
De asas de borboleta voando numa tarde quente.
Nestes leitos deitaram-se amantes
Desvaneceram-se vidas como nós de sapato
Que se afrouxam sobre a força das circustâncias
E que em lençois alvos deixaram espectros amarelados.
Estas paredes que ouviram sussuros entrelaços
Viram mãos que se procuraram
Enquanto bocas em silêncio lambiam o sal
Escondido em cristalinas gotas fluidas.
 
Ali, uma festa
Acolá o burburinho das gentes
Das saias, dos caminhos evitados
Do espetáculo evidente da força da vida.
O sol espancando as folhas
Que o doce vento sopra
Trazendo um extasiante perfume de amêndoas.
E há a chuva espargindo no ar
O cheiro de terra
Lavando os cabelos da musa
Que se recosta sossegada nos braços amantes
De um carvalho rosa.
 
Uma festa
Meus olhos veem e abrigam visões
Buscam a verdura de outros olhos
Uma maciez de lábios úmidos
Unidos num ósculo mágico
Num balé acrobático de corpos unidos
Que em espamos os olhos contraem
Ao sabor do malho
No calor do talho
Fundidos eternamente em um só bloco
De marmore bruto
Que um artista esculpe.

XIII


Meu amor é segredo,
O que não falo
Não penso
Calvaga em mim
Firme seguras minhas tensas fibras
Cavalo alado, pegasus cativo
Voa a imensidão
Busca nos barulhos das estrelas
Uma surpresa
Uma lembrança
Agarras meus cabelos
E por fim pões em minha boca o gosto
Dos teus desejos.
 
Meu amor é segredo
Estranho degredo em mim.

XII

A saudade
Absurda solidão que me invade
Escancarando as portas
Do coração
Como vento frio
Na alta madrugada
Latidos de cães na rua
Sem multidão
Onde caminha teu vulto
Com alvura fantasmagórica
Abraças-me num abraço insepulto
Levando-me às portas da loucura.

Eu que antes a tinha
De forma terna e intensa
Hoje grito seu nome num lamento
Buscando antiga doçura
Tomo cada letra como alimento
Rasgando a fibra infensa
Que me amarraste à amargura.

Sou eu que caminho
Solitário pelas ruas abandonadas
Procurando nas esquinas
Que nunca viste
O lugar escaninho na neblina
Sua imagem desterrada
Inútil procurar
Pois cada passo andado
Faz-me dobrar à angústia
Deste amor exilado.

XI

Agora que outras mãos hão de tocar-te o corpo
que antes passeava com sutis toques de pétalas de rosa...
vermelha hemorragia que verte de cada fenda aberta
lava quente que escorre por canais escuros sob camadas de pele...
Hás de perceber a força que os corpos têm de reavivar lembranças
em cada beijo que sobre ti tome outros lábios ofegantes...
Saltará em tua mente saudosas imagens do passado
renascendo como semente escondida no solo
que brota ao sol de um novo dia no calor ardente de outro corpo...
Recordarás minha presença em alguma carícia antiga que te ensinaram
esses dedos magros, esses lábios secos, essa pele opaca...
Verás a força da memória num velho gesto novo
que acordará de profundezas o amor que antes me dignavas...
Esse velho novo amor de antes
em uma nova aparência
há de fazer lembrando esquecer nosso velho tempo.

X


Sei que não posso me calar...
mesmo que me fechem a zíper a boca...
aquele sussurro abafado deverá conter
toda inútil revolta contra o ato...
todo ser se define numa existência...
e esperar por outra é querer conter o tempo...
como quem apara com a mão a areia da praia
tendo a vã ilusão de possui-la...
mesmo vendo-a escorrer por entre as frestas da mão...
a vida é uma areia fina que me escorre
de dentro do ser para o mundo em devir...
eu sou a noz secretada na bolota
que conserva o segredo do carvalho...
olhar o fruto é sentir o ser...
é perceber a essência pulsando...
aflita e intensa querendo viver...
não tenho posses pois tenho preguiça de carregá-las...
sempre preferi minhas mãos vazias...
qualquer coisa que me prenda a esse mundo...
me torna um pouco mais escravo...
os objetos do desejo podam as asas da criação...
e voar sempre foi meu maior desejo...
e nesse desejo a liberdade...

IX


E dentro desta casca outras cascas...
de modo que nunca me vejo...
apenas me sinto como sou...
eu é um outro alhures...
sentado numa praça fumando um cigarro..
num abraço apertado de namorados...
ou num beijo molhado...
eu sou esse objeto que nunca fui...
que nunca fui esse objeto que sou...
nos trezentos espelhos de imagens de espelhos...
eu sou outro...
sou outro eu...
nos trezentos espelhos...
nas vitrines que me veem...
nos olhos que me fitam...
eu sou outro eu...
e tenho certeza de nunca ter sido...
nos objetos que me são alheio...
eu é um outro...

VIII


Com quantas dobras se faz o tempo...
que permeia todas as coisas...
e faz de mim apenas mais um pequeno instante...
E quem sabe nesse pequeno instante...
quanto momentos dobrados possui
em suas eternas dobras...
Se o que vejo, ouço e sinto
é apenas uma aproximação do que é de fato...
Se apenas me sei através do outro...
onde cada instante pulsa um segundo sentido...
e me ensina que as coisas nunca são como foram...
senão imagem pálida de lembrança...
onde ancoro minha ilusão de vivência...
a vida, como areia na ampulheta...
aponta sempre pra um tempo passado...
e cada grão é como uma pequena fração...
do tempo, das coisas vistas, do mundo vivente...
em mim as dobras do tempo são recortadas...
para surgir o origami do eu...

VII

Mãos que dão adeuses
Como estas que agora agitas
Com força impotente
As ondas que me roubam a alegria.

Estas mãos que minhas mãos tocaram
Outrora fortes, hoje vazias
Confusas na própria imperícia
Arrancam-me do jardim das delícias
Empurrando-me a profundas agonias
Destas que meus olhos já flertaram.

Que estas mãos encontrem outras mãos
E que no carinho delas encontre a paz imperecível
O calor suficiente das vontades satisfeitas
Sem que o monstro do silêncio
Corrompa as estruturas do real...

VI

Quem rasga as tramas do tempo
e expõe sem recalque as verdades implícitas
se é o homem ou não ser vivo
que se faz constantemente a custa do dia
se essa carne é carne ou apenas amontoado
e se o suor é água ou lágrima que não chorada
custa ao ser não-ser sendo nunca tendo estado
nesse tempo que nunca se mostra
o que vejo sempre é um vago relance de sucessões
contínuas como as águas de um rio
que as pedras machucam sem fazer sangrar
que há em mim e nas tramas da minha carne
onde se abriga min'alma esse ser que percebo
mas que nunca se revela, aparte de mim
é o próprio mistério de nunca ter sido...
sou como pássaro cujas asas foram cortadas
cujo canto foi abafado e suprimido
enjaulado num corpo em tudo estranho
esse estranhamento do mundo
essa perplexidade diante de tudo
nada mais que o canto de um pássaro
perdido numa gaiola e que sonha que sonha
com um mundo que nunca tinha existido
e que apenas se apresenta, rastro de realidade
dentro de sua ilusão de uma liberdade que nunca veio...

V

Nunca foste outra senão a memória
Que perdura em minha matéria
Carregada de branca espuma
Que escorre dos pensamentos.
Nunca foste sol de verão
Águas plácidas conduzindo barcos
Murmúrio de folhas ao vento
Barulho de pés tocando a terra.
Nunca foste criatura entre criaturas
Nem tela nua de desenhos
Curvatura do espaço do abraço
Formiga solitária sob o chão.
Nunca foste sonho no sono
Minotauro numa esquina do labirinto
Nem mesmo labirinto de Teseu
Fio de Ariadne
Segredo de quem se perdeu.
Nunca foste Dulcineia, Medeia
Galatea apaixonada
Vertendo sangue em rio
Num choro alucinado.

És essa coisa indefinida
Frio na barriga
Carvalho solitário
Rosa descomunal
Num mundo de rosas fugidias.
És o gosto do gosto
Da minha lingua em tua pele
Da brisa em meu rosto
Movimento do mar.

És o que és
Seguindo sendo serás
Sereia
Cujo canto chega aos meus ouvidos
Torna-me cativo
Ulisses jogando-se ao mar
Do que és.