domingo, 12 de agosto de 2012

XXVIII

A língua rija do pássaro beija flor
Numa cópula cheia de transcendência
Sustido no ar por tão delicadas asas
Somente para oscular tão fina dama
Exigindo de si tão hercúleo esforço
É na natureza o mais belo dos dramas
Pois o coração bate urgente
Como o tropel de cavalos puro sangue
Ameaçando-lhe romper com furor a câmara
Onde oculta-se o potente motor
Porém recebe de sua desejada amante
O mais fino néctar de suave olor.

Pássaro, língua, flor dançam seu bailado
Frenético e ritmado à luz da tarde morna
Abre-se ela pétala por pétala
Ao seu beijo apaixonado
Geme cantigas antigas
De eternos namorados sem saber ela
Inocente pura rubra flor
Que o desejo de seu amante
É fugaz e limitado
E que ao fim do encantado balé
Ele já estará por outra apaixonado
Mal sabendo ela que vai aos poucos
Perdendo todo viço de outrora
Que foi por ele fecundada
E que na mesma primavera 
De outro ano estará novamente apaixonada.


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