Nunca foste outra senão a memória
Que perdura em minha matéria
Carregada de branca espuma
Que escorre dos pensamentos.
Nunca foste sol de verão
Águas plácidas conduzindo barcos
Murmúrio de folhas ao vento
Barulho de pés tocando a terra.
Nunca foste criatura entre criaturas
Nem tela nua de desenhos
Curvatura do espaço do abraço
Formiga solitária sob o chão.
Nunca foste sonho no sono
Minotauro numa esquina do labirinto
Nem mesmo labirinto de Teseu
Fio de Ariadne
Segredo de quem se perdeu.
Nunca foste Dulcineia, Medeia
Galatea apaixonada
Vertendo sangue em rio
Num choro alucinado.
És essa coisa indefinida
Frio na barriga
Carvalho solitário
Rosa descomunal
Num mundo de rosas fugidias.
És o gosto do gosto
Da minha lingua em tua pele
Da brisa em meu rosto
Movimento do mar.
És o que és
Seguindo sendo serás
Sereia
Cujo canto chega aos meus ouvidos
Torna-me cativo
Ulisses jogando-se ao mar
Do que és.
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