Quem rasga as tramas do tempo
e expõe sem recalque as verdades implícitas
se é o homem ou não ser vivo
que se faz constantemente a custa do dia
se essa carne é carne ou apenas amontoado
e se o suor é água ou lágrima que não chorada
custa ao ser não-ser sendo nunca tendo estado
nesse tempo que nunca se mostra
o que vejo sempre é um vago relance de sucessões
contínuas como as águas de um rio
que as pedras machucam sem fazer sangrar
que há em mim e nas tramas da minha carne
onde se abriga min'alma esse ser que percebo
mas que nunca se revela, aparte de mim
é o próprio mistério de nunca ter sido...
sou como pássaro cujas asas foram cortadas
cujo canto foi abafado e suprimido
enjaulado num corpo em tudo estranho
esse estranhamento do mundo
essa perplexidade diante de tudo
nada mais que o canto de um pássaro
perdido numa gaiola e que sonha que sonha
com um mundo que nunca tinha existido
e que apenas se apresenta, rastro de realidade
dentro de sua ilusão de uma liberdade que nunca veio...
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