sábado, 11 de agosto de 2012
XXV
Eu sou aquele que vive indistinto entre as pessoas
Sou o alheio no olho do meu vizinho
A sombra de um dia que passou
O gosto amargo de algo que se perdeu
Eu mil vezes eu estilhaçado entre os transeuntes
Eu em milhões de miríades de imagens caleidoscópias
O resto da garrafa de vinho quebrada na calçada
A pequena pedra no sapato
Sou aquele que vive submerso no medo
Que rasteja o lodo das misérias
Exalando o cheiro pútrido
Das lamentações do amante em agonia
Sou o corte profundo e o sangue carmim
O tudo e o nada, o avesso e o direito
Sou aquela lembrança de dias esquecidos
As pegadas no cimento fresco
Que ninguém nunca soube
A palidez desta rosa e o perfume do mar
Sou aquela ave que cruza o céu
Em dias de tempestade
Sou a tempestade
E sua destruição na manha de outro dia
Sou a agonia profunda nas profundezas do ser
Sou o circulo perfeito incompleto
E a distancia do raio
Sou o subterfúgio das lamentações
Um dia um rasgo deixará escapar o que sou...
E não mais vozes nem confusão nem lamentos..
Nem dias azuis cinzas tristes
Um dia me repartirei em milhões de pedaços
Que confusos cairão de sob o céu
Para molhar as calçadas da vida
como o grito da parturiente
O silêncio o natimorto...
Um dia, confuso entre coisas confusas
Minh'alma se abrirá a enorme solidão
Para ser tragado de súbito
No escuro desse nosso destino...
Aprendi a ser o falsete do jogo alheio
Aprendi a dissimular
E de tanto dissimular
Já não sei mais quem sou
Ou o que devo ser sendo.
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